Mordendo a maçã

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Por  | Ultrapop – qua, 26 de fev de 2014

O Brasil não participa das dinâmicas tecnológicas mundiais. Não temos indústria relevante na matéria. Do ponto de vista da informática contemporânea somos um zero à esquerda. Carta fora do baralho.

Os governos, no Brasil, quaisquer que sejam, pertençam ao partido que for, são dependentes da Microsoft para tudo. A comunicação administrativa, jurídica e política do país paga dividendos para Bill Gates e seus acionistas. As sentenças do Mensalão são escritas em Word, assim como o são os discursos do Presidente da República, dos Governadores de Estado e dos Prefeitos de Município. As planilhas do serviço público – fraudadas ou não – são feitas em Excel. No Brasil, tampouco produzimos micro-chips, nem sequer montamos computadores, nem sequer computadores ruins. Houve tentativas, num passado já distante, e não frutificaram. Também não produzimos telefones celulares. Importamos tais aparelhos, levemente adaptados às normas da nossa Anatel: são Nokia’s, Sony’s, Motorola’s, Blackberry’s, o que seja. Made in China, Made in Taiwan, Made in Cambodja. Nossos carros são feitos aqui, com mão de obra local, mas aqui não são criados, desenhados que são alhures.

Nesse contexto de dependência tecnológica e criativa enorme, jovens se aglomeraram em frente à primeira loja física da Apple no Brasil, dias atrás, e nos propiciaram um espetáculo de cair o queixo.

veja um vídeo, aqui.

A loja foi inaugurada com bandeira do Brasil tremulando e gritos eufóricos de “Ah, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”… Temos algo a ver com a Apple? Com as invenções da Apple? Participamos da história de sucesso tecnológico da Apple, de algum modo? Então, qual poderia ser o nexo entre a abertura dessa loja e o “orgulho de ser brasileiro”? Será porque recebemos uma Apple Store antes dos argentinos?

O nexo, se existir, é um enigma.

Lojas da Apple foram abertas em diversos países do mundo, também desprovidos de ligação criativa com a empresa, igualmente dependentes dessas tecnologias. Não se tem notícia de que a inauguração de alguma dessas lojas, em qualquer desses lugares, tenha desencadeado uma celebração de nacionalismo tão despropositada. Afinal, vá lá: faz sentido que Ayrton Senna dê voltas olímpicas com a bandeira verde-amarela entre os dedos; faz sentido que algum esportista o copie, num momento de sucesso e alegria. Até faz sentido.

Mas aqui, do que se trata, afinal?

Antes que algum leitor mais enfezado se arvore em leituras enviezadas do meu texto, esclareço que sou um grande admirador da Apple e de Steve Jobs, sobre quem já escrevi anteriormente, neste mesmo Yahoo! Brasil. Enfatizo ainda que, mesmo do ponto de vista estritamente comercial, a loja não representa quase nada de prático: os produtos da Apple já eram comercializados no Brasil, por diversos distribuidores e pela Internet, inclusive pelos mesmos preços. Ou seja, nem mesmo do ponto de vista da “novidade” a euforia catártica se justifica. Trata-se mesmo de um desrecalque subdesenvolvido dos mais puros, ao que tudo indica.

(por josé guilherme pereira leite – para a série “Coisas do Brasil”)
(dedicado ao amigo Allan Grabarz)

http://br.noticias.yahoo.com/blogs/blog-ultrapop/mordendo-maça-162224990.html

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