The New York TimesStuart Crabb, diretor-executivo do Facebook, naturalmente gosta de louvar os extraordinários benefícios que os computadores e celulares inteligentes propiciam. Mas, como muitos dos líderes do setor de tecnologia, também faz um aviso: é melhor desligar os aparelhos e deixá-los de lado, de vez em quando.

A preocupação, expressada em conferências e em entrevistas recentes de muitos executivos importantes do setor de tecnologia, é que os atrativos de um estímulo constante –as exigências ininterruptas dos telefonemas, mensagens e atualizações– estejam criando uma séria compulsão física que pode prejudicar a produtividade e as interações pessoais.

 

 

“Se você colocar uma rã na água fria e elevar lentamente a temperatura, ela ferverá até a morte –eis uma boa analogia”, disse Crabb, que comanda a área de aprendizado e desenvolvimento do Facebook. As pessoas “precisam perceber o efeito que o tempo passado on-line tem sobre seu desempenho e relacionamentos”.

A percepção pode não parecer reveladora para alguém que já tenha feito piadas sobre o estilo de vida “crackberry” ou lido os trabalhos de pesquisadores que tentam determinar se a tecnologia interativa é capaz de causar vício.

Mas ouvir esse tipo de afirmação da parte de muitos dos mais influentes líderes do Vale do Silício, cujas empresas se beneficiam do tempo que os usuários passam on-line, seria como se executivos do setor automobilístico tentassem alertar sobre os perigos da aceleração excessiva enquanto vendem carros esporte.

“Já passamos da fase de lua de mel, e agora chegamos à fase de perguntar o que foi mesmo que fizemos”, disse Soren Gordhamer, organizador da Wisdom 2.0, uma conferência anual realizada desde 2010 sobre a busca de equilíbrio na era digital. “Não significa que aquilo que fizemos seja ruim. Não estamos tentando atribuir culpa. Mas uma página foi virada.”

Na conferência Wisdom 2.0 deste ano, em fevereiro, fundadores do Facebook, Twitter, eBay, Zynga e PayPal, e executivos e dirigentes de empresas como Google, Microsoft, Cisco e outras ouviram palestras ou conversaram com especialistas em ioga e em atenção. Em pelo menos uma das sessões, debateram se as empresas de tecnologia têm a responsabilidade coletiva de avaliar seu poder de atrair usuários para jogos ou atividades que resultam em distração e desperdício de tempo.

O estudo científico desses jogos e aplicativos para determinar se de fato viciam ainda é incipiente. Mas o manual oficial de diagnóstico de distúrbios psiquiátricos usado nos Estados Unidos planeja incluir “distúrbio de uso de internet” em um de seus apêndices, no ano que vem, em nova indicação de que os pesquisadores acreditam que algo esteja acontecendo mas que estudos mais detalhados são necessários para que se possa definir o resultado como um distúrbio.

Algumas pessoas discordam de que exista um problema, mesmo que concordem em que as atividades on-line ativam mecanismos neurológicos profundos. Eric Schiermeyer, co-fundador da produtora de jogos on-line Zynga, criadora de sucessos como FarmVille, diz que ajudou a viciar milhões de pessoas em dopamina, um produto neuroquímico liberado por atividades prazerosas, entre as quais jogar videogames, mas que também desempenha papel no ciclo do vício.

No entanto, Schiermeyer disse acreditar que as pessoas já sentiam necessidade de dopamina, e que a responsabilidade do Vale do Silício pela criação de tecnologias irresistíveis não difere da responsabilidade dos restaurantes de fast food pela criação de pratos que atraem tanta gente.

“Os restaurantes poderiam se perguntar se são responsáveis por as pessoas engordarem. E a maioria dos observadores responderia negativamente”, disse Schiermeyer. “Porque somos humanos, todos queremos dopamina.”

Seguindo raciocínio semelhante, Scott Kriens, presidente do conselho da Juniper Networks, uma das maiores companhias de infraestrutura para a internet, disse que os poderosos atrativos desses aparelhos refletem primordialmente anseios humanos primitivos por conexão e interação, mas que esses desejos precisam ser administrados para que não sobrecarreguem a vida das pessoas.

“A responsabilidade que temos é a de oferecer capacidade mais poderosa ao mundo”, diz. “Nós o fazemos com os olhos abertos, sabedores de que isso causará alguns males. E se alguém perguntar por que não fazê-lo de modo que não cause danos, estará sendo ingênuo.”

“A alternativa é oferecer às pessoas capacidades menos poderosas, e todos saem perdendo com isso”, acrescenta.

Crabb, do Facebook, diz que sua preocupação primária é que as pessoas tenham vidas equilibradas. Ao mesmo tempo, reconhece que a mensagem pode contrariar o modelo de negócios do Facebook, que encoraja as pessoas a passarem mais tempo on-line. “Vejo o paradoxo”, afirma.

O diálogo emergente a esse respeito reflete esforços mais amplos do Vale do Silício para oferecer contrapesos ao estilo de vida acelerado que a tecnologia propicia. Muitas empresas de tecnologia ensinam meditação e exercícios de respiração aos seus funcionários, para ajudá-los a desacelerar e a deixar o trabalho de lado.

 

 

MEDITAÇÃO E PINTURA

Na Cisco, Padmasree Warrior, vice-presidente de tecnologia e estratégia e antiga vice-presidente de engenharia, um cargo no qual comandava 22 mil subordinados, diz que instruía os subordinados a fazerem pausas regulares para respirar, e que faz o mesmo. Ela medita todas as noites e no sábado pinta e escreve poesia, desligando o celular ou deixando-o em outro aposento.

“É como se você reiniciasse sua mente e alma”, diz. Ela acrescentou, quando à desintoxicação digital das manhãs de sábado que “isso me deixa muito mais calma quando tenho de responder aos meus e-mails, mais tarde”.

Kelly McGonigal, psicóloga que leciona sobre a ciência do autocontrole na escola de medicina da Universidade Stanford (e foi convidada a palestrar na escola de administração de empresas de Stanford) diz que conversa regularmente sobre essas questões com os líderes das companhias de tecnologia. Disse que a disposição deles de discutir um potencial lado negativo de suas inovações lhe causou boa impressão. “As pessoas que dirigem essas empresas querem que sua tecnologia e aparelhos melhorem a vida dos usuários”, diz. “Mas estão começando a perceber que algumas pessoas não conseguem se afastar”.

Ela também disse acreditar que aparelhos interativos podem criar senso permanente de emergência, acionando os sistemas cerebrais de estresse –uma posição que começa a ganhar mais aceitação.

“É um reconhecimento cultural básico de que as pessoas têm um relacionamento patológico com seus aparelhos”, diz. “As pessoas se sentem não só viciadas como aprisionadas.”

Michelle Gale, que recentemente deixou o cargo de diretora de aprendizado e desenvolvimento no Twitter, disse que instruía os engenheiros e executivos da empresa quanto à possibilidade de que seus programas criassem vícios.

“Eles respondiam que não sabiam disso, ou que, se sabiam, não tinham ideia do que fazer a respeito”, recorda Gale, que organizava aulas regulares de meditação e improviso cômico no Twitter para encorajar as pessoas a deixar que sua atenção se dispersasse.

O Google criou um movimento para ensinar conscientização e técnicas de melhora de foco aos seus funcionários. Richard Fernandez, instrutor de executivos da companhia e um dos líderes do projeto, diz que os riscos de envolvimento excessivo com aparelhos são graves.

“É algo de muito importante”, diz, acrescentando que, se as pessoas conseguirem se desconectar de vez em quando, “podem ter relacionamentos mais íntimos e autênticos com elas mesmas e aqueles a quem amam em nossas comunidades”.

O Google, que é dono do YouTube, fatura mais com publicidade caso os usuários fiquem on-line por mais tempo. Mas Fernandez, ecoando os comentários de outros executivos do Vale do Silício, diz que o objetivo da empresa não é pressionar as pessoas a adotar comportamento destrutivo.

“Os consumidores precisam ter uma bússola interna que os ajude a equilibrar as capacidades de trabalho e busca que a tecnologia oferece à qualidade de vida que têm off-line”, diz.

“O objetivo é criar espaço, porque de outra forma podemos ser arrastados pelas nossas tecnologias”, afirma Fernandez.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s